
Para inaugurar a nossa coluna de entrevistas, o escolhido foi o chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Pará, Cláudio Puty. Belenense, Puty é formado em Economia pela Universidade Federal do Pará, mestre em Teoria Econômicapela Universidade de Tsukuba, no Japão, e doutor em Economia Política pela New School for Social Research, em Nova Iorque. Militante assumido desde os tempos de estudante secundarista,o atual chefe da Casa Civil é filiado ao Partido dos Trabalhadores e forte candidato a pleitear uma vaga na Câmara Federal pela legenda nas eleições de outubro. Em seu blog recém criado, Puty se declara “um socialista que sonha com um mundo profundamente democrático e comunitário”.
Blogosfera
Observatório: Olá, secretário. Impossível não começar essa entrevista comentando sobre o seu blog criado na semana passada. Quais são suas primeiras impressões e respostas após um pouco mais de uma semana na blogosfera? Como o senhor vê o impacto dessas novas ferramentas de aproximação com o povo nas próximas eleições?
Puty: Blogosfera é interação, opinião e debate, oportunidade para combinar ação e reflexão, para explicar às pessoas o que nos move, quais os objetivos das ações e políticas públicas que temos adotado para mudar o Pará e as idéias que inspiram essas ações. Essa primeira semana tem sido estimulante. Tenho recebido mensagens encorajadoras, muita crítica construtiva e um número ínfimo de material inservível, predatório. A rede social na internet é estratégica não apenas no contexto eleitoral. Trata-se de um espaço público que rompe o bloqueio hegemônico da mídia convencional sobre o fluxo de informações e que se consolida como ferramenta privilegiada de aproximação entre as pessoas.
Candidatura à Câmara
Observatório: Especula-se na imprensa paraense que o senhor será candidato à Câmara Federal pelo PT. Isso o atrapalha de alguma forma na condução da Casa Civil?
Puty: Como você diz, trata-se de uma especulação. É óbvio que a governadora Ana Júlia tem todo interesse em debater uma candidatura à Câmara Federal que garanta sustentação política às teses que defendemos no âmbito do PT para a sociedade. Para nós, do PT, os projetos vêm antes dos nomes. A Casa Civil é o braço da articulação política do Executivo, mais especificamente da governadora Ana Júlia. Por ser uma posição de evidência no governo, está sujeita a todo tipo de julgamento, especulações e ilações que, se não ajudam, tampouco atrapalham. São apenas conseqüências das atribuições do cargo. Se for candidato, vou sair no prazo legal e isso não atrapalha nem um pouco a condução da Casa Civil; se não for candidato, fico na Casa Civil até quando a governadora Ana Júlia considerar que é necessária a minha permanência nessa função.
Governo Ana Júlia
Observatório: O senhor conseguiu implementar todos os projetos que planejou quando assumiu a Casa Civil em 2008 ou a crise econômica adiou alguns?
Puty: O Governo Popular assumiu em 2007 com o objetivo de fomentar um novo modelo de desenvolvimento para o Estado, que colocasse como centro de sua ação todos os municípios e todas as regiões – e não apenas a capital -; um modelo que eliminasse os gargalos que nos impedem de incorporar valor às nossas matérias-primas, verticalizando por exemplo a produção minerária; um modelo que criasse uma base tecnológica para a produção de conhecimento na região – por meio de parques tecnológicos, de universidades, como a Ufopa, e do NavegaPará; um modelo que preservasse as nossas reservas de biodiversidade e lançasse uma ação de reflorestamento que fosse, ao mesmo tempo, fonte de geração de emprego e renda – a exemplo do programa Um Bilhão de Árvores para a Amazônia -, enfrentasse o passivo ambiental e fundiário no Estado, estabelecesse as bases para a ampliação da oferta de trabalho e renda nas áreas urbanas; um modelo revertesse o déficit habitacional; um modelo que revitalizasse o sistema de segurança pública, sucateado durante 12 anos de gestão neoliberal; um modelo que ampliasse o sistema de saúde pública e viabilizasse a parceria com as prefeituras para reforçar as políticas públicas do Sistema Único de Saúde; um modelo que restabelecesse a confiança no sistema público de ensino, revitalizando as escolas e criando condições mínimas para uma educação de qualidade; e, principalmente, firmasse uma sólida parceria com as organizações populares, para cuidar dos segmentos mais vulneráveis da sociedade.
Mesmo com uma crise internacional que abalou a economia de todo o planeta, temos conseguido fazer o nosso dever de casa, em um Estado que foi completamente desmantelado. Para se ter idéia, a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) já anunciou que, nos próximos quatro anos, haverá investimentos de US$ 51 bi no Estado, com geração de 120 mil empregos. Outro dado importante está na diminuição do déficit habitacional: vamos construir um total 100 mil unidades até 2011, e as entregas já começaram. A parceria com as prefeituras também já é realidade. Fazemos hoje repasses fundo a fundo para a saúde municipal. Já reconstruímos mais de 600 escolas no Pará, metade do total de prédios no Estado.
Então podemos dizer que lançamos as bases para a mudança que nos propusemos a realizar, mas a transformação requer tempo, é uma tarefa diária, dura, e temos a convicção de que o povo do Pará vai continuar avalizando o processo que estamos conduzindo, porque ele integra um projeto maior, afinado com o que o presidente Lula iniciou ainda em 2002 e que será aprofundado com a eleição da ministra Dilma Roussef para a Presidência e a recondução de Ana Júlia para o governo do Pará.
Observatório: Na sua opinião, qual a maior mudança que o atual governo implementou no Estado nesses 3 anos de gestão do PT?
Puty: O PT tem a hegemonia, mas não governa só. Temos uma coalizão com vários partidos, dentre os quais destacamos o PMDB, o PDT, o PTB, o PCdoB, o PV, o PSB e o PP, por exemplo. A maior mudança é mesmo a inversão de prioridades, com massivos investimentos públicos na área social, fomento à produção, incentivos à geração de emprego e renda, inclusão, respeito ao funcionalismo público, enfim ... somos, PT e PSDB, como água e óleo.
Duciomar e os problemas da área de saúde
Observatório: Em uma entrevista recente ao jornal Diário do Pará, o prefeito Duciomar Costa apontou o Governo do Estado como responsável pelos problemas no sistema de saúde na capital. Como o Governo viu essa declaração?
Puty: Se o prefeito disse de fato o que o jornal publicou, ele está equivocado. Decreto assinado pela governadora Ana Júlia garante, desde o ano passado, o repasse de recursos direto, fundo a fundo, às prefeituras de todos os municípios para as ações básicas de saúde. Nós ampliamos em muito os agentes do Programa de Saúde da Família em todo o Estado e levamos as ações inclusive para municípios cujo acesso só é possível de barco. Além do mais, há ressarcimento pactuado pelo SUS para qualquer doente que venha do interior para ser atendido na capital e os hospitais regionais, a maioria deles inaugurada na gestão anterior sem nenhum equipamento, apenas simulacros de hospital, estão em pleno funcionamento hoje, alguns deles como referência em várias especialidades.
Pesquisas eleitorais
Observatório: Algumas pesquisas já começaram a ser realizadas para saber como anda o “humor” do eleitor. Qual a avaliação que o senhor faz sobre os resultados apresentados até agora sobre o Governo e o PT?
Puty: A pesquisa afere sempre uma amostragem da opinião pública em um momento específico. É um balizador. As que eu tive acesso mostram que estamos no rumo certo, vamos continuar trabalhando na direção que nos propusemos: a transformação das condições de vida do povo do Pará, o cuidado com as pessoas.
PMDB e outras alianças
Observatório: Todos os nomes e alianças do Partido dos Trabalhadores no Pará para as próximas eleições já estão definidos? Afinal, como está o relacionamento com o PMDB e Jader Barbalho?
Puty: Nós estamos conversando com todos os segmentos políticos interessados em dar continuidade ao projeto democrático-popular iniciado em 2007, que rechaça o modelo neoliberal representado pelo PSDB. Nosso relacionamento com o PMDB é de diálogo, tanto em âmbito local como nacional. Temos um projeto que tem apresentado resultados concretos e queremos mantê-lo, apesar das divergências naturais relacionadas à disputa por espaços no governo. Acredito que vamos superar essas dificuldades pontuais muito em breve.
PSDB: cenários nacional e local
Observatório: Nacionalmente, o PT aposta nas próximas eleições numa comparação direta entre os governos do PSDB e do PT. No Pará, qual será a estratégia?
Puty: O PSDB está na contramão da história. A pauta do neoliberalismo é o passado, quando o povo brasileiro está interessado em debater o futuro. No Pará e no Brasil, o futuro somos nós!